terça-feira, 23 de outubro de 2018

Felicidade


O que é felicidade?
Acho que depende...
Quando eu era pequena, felicidade era passar de ano, brincar na rua com os amigos, nadar no tanque de carpa que tínhamos no sitio e/ou ganhar presente de Natal. 
Quando eu me tornei adolescente, felicidade era quando minha mãe me deixava sair de casa, era ser notada pelo garoto dos meus sonhos, era acampar e cantar em volta da fogueira. 
Aos vinte, felicidade era estar fazendo faculdade.
Aos vinte e dois era ter um namorado apaixonado. 
Aos vinte e cinco, felicidade era ter um bom emprego e ter uns trocados no bolso.
Com vinte e sete felicidade foi ver minha filha nascer.
Agora, com trinta e poucos, e com algumas feridas que a vida me deu, felicidade é poder ser quem eu realmente sou. 
Sem máscaras, sem filtros, sem papéis. Ser real!
Ah se eu soubesse lá atrás o que sei hoje...
Eu trocaria o presente de Natal pelo abraço das pessoas que eu amo. 
Eu trocaria as boas notas na escola por estudar o que me da prazer. 
Eu trocaria o ser notada pelo garoto dos meus sonhos pelo desejo de compartilhar a vida com quem me olha nos olhos e me enxerga. 
Eu trocaria o bom emprego por um emprego que me realize. 
Eu trocaria o ser bem sucedida financeiramente, por ser livre da necessidade de ter coisas. Esse livre é tão simples! Sem necessidade de ter além do que preciso. Simplesmente o básico, o necessário.
Preciso de um chimarrão, ficar um pouco sozinha, fazer bagunça ou ler uma historia para minha filha, andar as vezes de mãos dadas, alguns amigos para conversar e dar risada... Só o necessário para ser eu mesma.
Isso para mim é felicidade. Apenas ser. 
Ser leve nos pensamentos. 
Ser sincera no olhar. 
Ser amorosa no escutar. 
Ser mão que estende. 
Ser pé que anda em direção ao outro. 
Ser corpo que abraça. 
Ser...

E pra você, o que é felicidade?

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segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Dia do Psicólogo


Ser psicólogo é ter responsabilidade consigo e com o outro. É cuidar do outro, mas também cuidar de si. É uma profissão onde assumimos a responsabilidade de ser uma pessoa sempre melhor. Desenvolvemos o dom de ouvir, olhar, falar, observar, acolher, ficar no silêncio e não julgar. É estar atento, presente, compreender até o que não tem compreensão. É saber costurar, sem nunca ter tocado em tecido, muito menos em agulha.
Sinto-me orgulhosa pela escolha da minha profissão. É um privilégio estar com o outro, estar com o ser humano e poder ajuda-lo a encontrar seu caminho. É precioso sentir que estou junto do outro, independente do que sinta – medo, tristeza, raiva, prazer, inquietação, angustia, incerteza, alegria...
Meu sentimento é de GRATIDÃO pela confiança de cada pessoa que chega e confia a mim sua história. É meu propósito maior dar a alguém o meu silêncio, minha escuta, minha acolhida e minha voz para abrir novos caminhos.
Aprendo todos os dias a ouvir sem julgar, ver sem me espantar e acreditar que cada um sabe o que é melhor e por isso falar o suficiente, sabendo o peso da minha palavra. Aprendo também a guardar comigo os pensamentos, as lágrimas, as esperanças e os segredos tantas vezes compartilhados.
Por fim, que eu possa continuar na minha jornada cada vez mais consciente da responsabilidade da minha profissão e agradecida pela confiança e, principalmente, por participar da vida das pessoas que desejam e sonham serem mais felizes e que acreditam que a alegria é possível quando nos conhecemos e nos aceitamos como ser humano.



Micheli Krayevski Eckel
47 9 9193 6553

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Dependência Química e Psicanálise


A psiquiatria, no caso das adicções, é de fundamental importância na medida em que oferece ao meio científico a possibilidade de definição da dependência química, como uma síndrome passível de diagnóstico e tratamento. Já por sua vez, a psicanálise nos auxilia a compreender os mecanismos psíquicos envolvidos nesse processo patológico.
Freud, em seu trabalho: “O Chiste e sua Relação com o Inconsciente” deu os primeiros passos da psicanálise no estudo da dependência química. Ele relacionou a drogadição com a satisfação de necessidades infantis primárias. Postulou que a origem das drogadições está na fase oral do desenvolvimento, do nascimento até aproximadamente 2 anos de vida. Assim, a toxicomania pode ser interpretada como uma fixação oral. A maior contribuição de Freud, nesse caso, foi descrever a dinâmica da oralidade que inclui aspectos como a intolerância a espera na satisfação de desejos e a importância da fixação e da regressão. Em “Luto e Melancolia” Freud afirmou que a embriaguez alcoólica pertence ao grupo dos estados maníacos na medida em que se produz estados eufóricos e esses, por sua vez, asseguram que algo não apareça na consciência. “Aquilo que o ego dominou e aquilo sobre o qual está triunfando permanecem ocultos”.
Segundo Silveira Filho, no livro “Drogas: uma Compreensão Psicodinâmica das Farmacodependências”, vários outros psicanalistas começaram a estudar a toxicomania partindo das primeiras prerrogativas de Freud. Pierre Clark estudou a relação entre o alcoolismo e a depressão. Kielholz descreveu a toxicomania como uma neurose narcísica relacionada à psicose maníaco-depressiva. Rado diz que a função da droga é anestesiar o sofrimento do adicto em decorrência de suas características depressivas e maníacas e associou a toxicomania à liberação de impulsos destrutivos. Para Simmel a droga atua neutralizando o superego, deixando o ego livre para reencontrar a autoestima perdida por meio de um processo regressivo que vai fazendo do adicto uma criança cada vez mais narcisista, que organiza a sua atividade consciente obedecendo, quase que exclusivamente, ao princípio do prazer infantil. Rosenfeld acredita que o adicto, por suas fragilidades, tenta fugir dos estados depressivos que o ameaçam recorrendo à droga com o objetivo de produzir os estados maníacos.
Para Rosenfeld, em “Os Estados Psicóticos”, abordando a teoria Melanie Klein, diz que o fenômeno da toxicomania não se deve apenas à regressão oral do toxicômano (como sugeriu Freud), mas também a uma excessiva divisão do seu ego e seus objetos internos, a qual produziria uma extrema fragilidade egóica. Segundo ele, o toxicômano estaria fixado na posição esquizo-paranóide, embora tenha atingido parcialmente a posição depressiva, na qual dificilmente poderia tolerar o seu ingresso total. Com a droga, justamente, o que ele tenta é evitar cair na posição depressiva porque representa a incorporação dos seus aspectos dissociados. A possibilidade desta incorporação implicará para o toxicômano na desintegração total de seu ego, ou seja, a psicose. O toxicômano encontra na droga um caminho quimicamente efetivo para superar sua fragilidade egóica e assim, supostamente, evitar sua desintegração psicótica. Com isso, a droga passa a ser um objeto idealizado que irá neutralizar a ansiedade paranóide que provém da ameaça constante do núcleo psicótico. A droga entra com a finalidade de conter a parte psicótica da personalidade do adicto, mantendo uma estruturação, mesmo que frágil. Em muitos casos, essa estruturação não consegue se manter, pois quanto mais cindida está a personalidade do indivíduo, maior é o risco de a droga desencadear um surto psicótico. É possível perceber a utilização de mecanismos de defesa primitivos próprios da posição esquizo-paranóide, tais como: identificação projetiva, negação, idealização, cisão e pensamento onipotente.
Utilizando como referência a teoria de Winnicott, quando ele escreve: “O ambiente e os processos de maturação: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional” o desenvolvimento emocional do dependente químico, ocorreram falhas ambientais em um estágio precoce, especificamente na passagem da fase de dependência absoluta para a fase de dependência relativa, as quais impossibilitaram o desenvolvimento adequado.  A fase de dependência absoluta ocorre após o nascimento. É o momento em que o bebê é totalmente dependente da mãe ou do cuidador, aquele que exerce função materna. Ele ainda não é capaz de perceber que seu corpo é separado do corpo de sua mãe, já que são pessoas diferentes. Nessa fase, a mãe deve adaptar-se da forma mais completa possível às necessidades do bebê. Assim, a mãe possibilita que o bebê viva as necessárias experiências de onipotência. Por exemplo, se o bebê tem fome, a mãe oferece o seio para alimentá-lo. Com isso, o bebê vive a ilusão de que foi ele quem criou o seio, que ele cria a realidade. Essas experiências de ilusão, de ser o criador do mundo, são muito importantes para um desenvolvimento saudável. Com o desenvolvimento, é natural que o bebê, aos poucos, viva a experiência de separação da mãe; que possa ir percebendo que ele e a mãe são pessoas separadas física e psicologicamente. É a fase de dependência relativa, que se desenvolve a partir dos cinco ou seis meses de idade. A mãe suficientemente boa, vai inserindo o princípio de realidade, desiludindo o bebê gradativamente. As repetidas experiências de ilusão possibilitaram o surgimento de uma área intermediária de experiência entre a realidade subjetivamente percebida e a realidade objetivamente percebida denominada espaço potencial. É uma área intermediária entre a ilusão e a realidade. É aqui que os objetos e fenômenos transicionais têm o seu lugar e são esses que muito ajudam o bebê na elaboração da separação com relação à mãe. Os objetos transicionais são objetos eleitos pelo bebê, como ursinhos, fraldinhas, a ponta do cobertor.  O objeto transicional representa, ao mesmo tempo, a realidade interna e externa e oferecem conforto ao bebê. Na medida em que a criança vai se desenvolvendo, o objeto transicional vai perdendo seu significado e é deixado de lado, podendo ser resgatado em alguns momentos difíceis, que exijam maior proteção. Os objetos transicionais não são nem puramente imaginação, nem puramente realidade. Representam a entrada no mundo simbólico. O objeto existe na realidade, mas seu significado é simbólico. No caso da dependência química, a patologia se instala na medida em que há a cronificação do objeto transicional, isto é, quando a relação com o objeto persiste de modo exclusivo e prolongado. Dessa forma, o objeto não serve para elaborar a ausência materna e sim para negá-la. O uso cronificado implica a ilusão de que o objeto é a mãe. Isso ocorre, geralmente, quando há repetidas falhas relacionadas ao cuidado materno, especialmente nesse caso, na apresentação dos objetos ao bebê na fase de dependência relativa. O contato com os objetos passa a ser mais importante do que o contato com as pessoas, principalmente no que se refere ao apaziguamento de angústias. Com isso, instala-se uma tendência a buscar objetos concretos para aplacar o sentimento de vazio, angústia e solidão. Assim, as substâncias psicoativas são fortes candidatas a exercer esse papel.
Atender um indivíduo com diganóstico de dependência química não é uma tarefa fácil. Experimentamos sentimentos intensos, devido a ampla utilização de mecanismos de defesa, transferência e a fragilidade da abstinência. Trabalhar com dependência química envolve desenvolver tolerância à frustração, ao mesmo tempo fé e esperança da possibilidade de uma mudança de vida. Munidos de teorias psicanalíticas e de capacidade de continência é possível oferecer tratamento digno ao dependente químico. É importante ressaltar a necessidade de atendimento interdisciplinar, profissionais capacitados, grupo de apoio, reinserção social, associados ao tratamento psicológico é possível produzir resultados positivos.

Micheli Krayevski Eckel
Psicóloga CRP 12/08587
(47) 99193-6553





Drogas na Sociedade: Por que está cada vez pior?


É sabido, que ao longo de toda a história da humanidade as substancias psicoativas foram utilizadas para alterar as percepções, entrar em contato com deuses e até como um artifício para sair da realidade. Porem,  é no século XX que o uso e abuso de drogas surge como um problema social a ser combatido. As drogas tem assumido uma importância cada vez maior, tornando-se uma questão de saúde pública.
Dois fatores específicos são notórios na diferença das civilizações antigas para as atuais: a evolução cientifica em concentrar o princípio ativo das plantas (potencializando seus efeitos alucinógenos); e o advindo da Revolução Industrial que potencializou produção em larga escala e a comercialização da droga.
No início os princípios ativos foram isolados com fins medicinais. Até mesmo Freud se dedicou a estudar os efeitos da cocaína, inclusive se utilizando como sujeito de pesquisa. Foi em 1884 que ele publicou um artigo recomendando a cocaína, este foi severamente criticado. Já em 1885 ele começou a perceber o principal sintoma prejudicial da cocaína: a dependência. Em 1887 ele publicou o artigo intitulado de “Angustia e Medo da Cocaína”, como uma reparação no meio científico por ter recomendado o uso de tal substância.
Dr. Eduardo Kalina (1999) considera a drogadição uma doença psicossocial com o envolvimento de fatores individuais, familiares e sociais. A cultura social seria incentivadora do consumo de drogas quando dissemina a mensagem que a vida não vale nada. Isso ocorre, segundo o autor, na medida em que há produção de armas de destruição em massa, propagandas sobre drogas legalizadas (álcool e tabaco), uma sociedade centrada no poder de consumo e na obtenção de lucros. A indução ao uso de drogas aparece também na supervalorização de ídolos usuários de drogas e/ou suicidas em potencial, na existência do narcotráfico dominando cidades inteiras, na destruição das reservas ecológicas do planeta, na corrupção, dentre outros motivos.
Se olhamos de perto, cada sociedade produz suas próprias patologias. No caso da nossa, a combinação entre o desenvolvimento dos processos de produção do álcool, cocaína, crack, a manufatura de drogas sintéticas cada vez mais potentes e um meio social altamente competitivo, incentivador de desejos ilimitados e da busca incessante pelo prazer imediato, produz um cenário ideal para a proliferação do abuso de drogas e da dependência química.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Funcionalidade da Família



É tema frequente no meio científico e em rodas de conversas informais a importância da família na construção de pessoas saudáveis e maduras. As grandes atrocidades, a violência nas escolas, crimes com altos níveis de crueldade e até mesmo o uso de drogas, nos levam a pensar como uma família que falha em sua função é capaz criar indivíduos altamente disfuncionais socialmente.
Um sistema familiar funcional tem um comportamento que possibilita aprendizagens, crescimento e movimento, e que é coerente com o contexto em que se encontra. Se avaliarmos uma estrutura familiar só sob o ângulo dessa definição de funcional já podemos enxergar como e quando uma família está sendo funcional ou disfuncional na criação dos seus membros.
Tendo em vista a questão de coerência com o contexto, se conclui que para esta avaliação de funcionalidade não pode haver verdades absolutas, e todos os parâmetros devem ser ajustados à realidade de cada família específica. No entanto, de uma forma geral, existem alguns itens que são importantes na estruturação de uma família que auxilia seus membros a serem mais funcionais – que aprendam, cresçam, sejam autônomos e responsáveis.
Certamente, existem famílias que ajudam mais, e outras que ajudam menos seus membros a crescer como pessoas funcionais. Uma família funcional é aquela que cumpre suas funções básicas de criação e desenvolvimento dos seus membros de uma forma firme e flexível, adaptada às circunstâncias e aos fatos de cada momento e que ajuda a todos a estarem sempre num processo de tomada de consciência, de aprendizagem e de crescimento.
Uma das formas de avaliar a funcionalidade de uma família é observando as suas fronteiras. Fronteira é um limite que define quem é, e quem não é, daquele sistema. No caso da família, essa fronteira deve ser nítida, no sentido de definir quais tarefas e funções dos membros da família devem ser desempenhadas por eles, e por outro lado possibilitar intercâmbio, contato e aprendizagens com outras pessoas de outras famílias ou da família extensa.
Quando as fronteiras dentro da família (casal, filhos, pais) não são bem definidas, é comum ter um filho ocupando uma tarefa ou uma função que não deveria ser sua. Com isso, ele tem seu desenvolvimento perturbado; seu crescimento é impedido; a passagem das etapas, a mudança de funções, a capacidade de exercer atividades criativas ficam alteradas. Por exemplo, uma criança que é permitido que intervenha no casamento de pais, e estes ficam incapazes de ter intimidade entre si, está cumprindo função disfuncional, e seu lugar como filho encontra-se mal definido. Isso vai, no futuro, dificultar que ela se liberte e organize sua vida amorosa, afetiva e sexual, que construa sua própria família. No caso de haver uma não-separação dentro da família e um fechamento com relação ao mundo externo, a família aprisiona seus membros, sem possibilitar o desenvolvimento da autonomia.
Outra forma de avaliar a funcionalidade familiar é verificar se estão desenvolvendo no seu dia a dia os aprendizados que são necessários para a criação de indivíduos funcionais e que é na família de origem o melhor lugar para treiná-las.
Algumas dessas aprendizagens são ligadas a:
- Limites: todos os membros da família precisam deles. Os limites começam a ser definidos já na volta da maternidade – na forma como vão lidar com espaços da casa. É o bebê quem deve se adaptar a família (e não o contrário). E seguem por toda a vida familiar, com as tarefas, os horários, rotinas, valores familiares. Isso implica em direitos e deveres, regras, orientação, contratos e muitos outros itens que darão à criança a certeza de ser amada, cuidada e orientada. A falta de limites claros gera na criança (e nos adultos também) a sensação de estar à deriva, de não ter com quem contar, de insegurança e desamor.
- Abertura e fechamento: implica em aprender o que é público e o que é privado; o quanto se pode abrir e aprender com outras pessoas, com outras famílias, com outros parentes. E também o quanto devem se fechar dentro da família para manter a identidade, a estrutura e o aconchego familiar. Esse fechamento deve ser o suficiente para impedir que “os de fora” possam nortear as decisões da família.
- Equilíbrio dinâmico: é a possibilidade de lidar de forma flexível com todos os aspectos familiares, mantendo a estrutura e o equilíbrio, mas adequando-os às mudanças, aos momentos do ciclo vital familiar, aos imprevistos. Para que a família possa continuar funcionando mesmo com a ausência de um membro.
- Trocas afetivas: saber conectar com seus sentimentos e sensações, saber expressá-los, saber ser continente do afeto e dos sentimentos dos outros. Dos sentimentos ditos positivos (amor, carinho, aconchego, cuidado) como também dos chamados negativos (raiva, medo, mágoa, tristeza).
- Desenvolvimento de auto estima: que depende da certeza de que tem a capacidade. É um processo de descoberta e treinamento das competências reais. Pressupõe aprender a lidar com as diferenças – de opiniões, de características, de habilidades – e com a valorização de cada um, mesmo sendo muito diferente. É ser capaz de lidar com solidão, suportar a rejeição e permitir a privacidade sua e do outro.
- Tarefas: todos na família devem e precisam cooperar na manutenção da vida familiar. Numa família funcional todos têm tarefas e responsabilidades. Cada um conforme sua capacidade, competência e condições. Desde guardar os brinquedos após o uso, até prover o sustento familiar.
- Autonomia: adequar o que cada um pode fazer sozinho, precisa de supervisão ou não tem idade/habilidade/competência para fazê-lo.
- Independência: o direito à liberdade e independência deve ser concedido a partir de prova de responsabilidade e autonomia.
Este assunto nunca se esgotará, nem os itens discutidos serão os únicos, mas servem para ampliar a reflexão e melhorar nossa forma de organizar nossas famílias.

Abraço
Micheli Krayevski Eckel
Psicóloga

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Consumismo Infantil



Com a chegada do natal e das confraternizações de final de ano, temos em nossa cultura o hábito de presentearmos uns aos outros, principalmente as crianças com a ideia de Papai Noel. Assim aprendem que natal é sinônimo presentes. De modo que não são incomuns as listas quilométricas de solicitação de presentes – as quais os pais acabam tendo que driblar as exigências dos filhos.
Resultado de imagem para saco do papai noelAgora é o tempo propício para refletir sobre como o consumismo na infância e como tem permeado nossa cultura e dominado um cenário onde o “ter” é mais importante do que o “ser”.  As crianças são vistas pela mídia como potentes consumidores e sido alvo de propagandas avassaladoras na apreensão do desejo. É construída a ideia de que criança feliz é aquela que tem muitos brinquedos; pais bons são os que conseguem dar tudo o que os seus filhos querem, mesmo que à custa de esgotamento no trabalho e sacrifícios na vida financeira da família.
Que lugar o consumismo ocupa nas famílias contemporâneas? Será que muitas vezes a compra de brinquedos serve como um "tapa buraco" emocional? Suprir ausências? Ou única e precária forma que sabemos demonstrar afeto?
É possível perceber que grande parcela das crianças já tem brinquedos demais, cômodos abarrotados de objetos de entretenimento que já não são usados há muito tempo. E ter brinquedos não significa brincar. A propósito, brinquedo em excesso pode significar falta de espaço para brincar. Paradoxalmente, em meio a tantos entretenimentos, vemos também uma geração de crianças prostradas, isoladas, viciadas em seus eletrônicos e desmotivadas para brincar livremente, beirando a apatia e ao tédio.
Na contramão da tendência atual, o livre brincar é uma atividade bastante desejável para o bom desenvolvimento da criança. Aparentemente simples e natural, não precisa de brinquedos estruturados, insubstituíveis e caros para sua execução. É livre de regras, imposições e estímulos intencionalmente educativos. Qualquer objeto que lhe capture a capacidade imaginativa e a espontaneidade é o suficiente para uma experiência extremamente enriquecedora e prazerosa.
Outro ponto importante é lembrar que brinquedo nunca é apenas um brinquedo, mas carrega em si uma série de construção social e emocional, pois ensina à criança aquilo que a sociedade quer que seja aprendido – valores, regras e condicionamentos. Temos como forte exemplo a aquisição de brinquedos que reforçam o próprio consumo, de pertencimento a determinado grupo e que expressam as polêmicas relações sexistas.
No fundo, os pequenos querem e precisam bem mais de momentos de qualidade com a família e os amigos, onde eles recebam atenção e interação e não necessariamente brinquedos. O melhor presente, em qualquer data do ano é sempre a presença dos pais e demais representantes de amor e vínculo.
Trabalhar com a criança valores que a protejam de uma visão consumista e depredatória do mundo é uma importante missão ligada à educação doméstica e escolar. No entanto, o consumismo infantil vai muito além destas esferas, sendo também um problema de ordem ético-econômica, social e ambiental, do qual somos todos responsáveis e potentes agentes transformadores.
Assim, nós adultos, mesmo imersos nesse contexto cultural desfavorável, temos a capacidade de reflexão e consciência crítica para que com responsabilidade possamos ensinar as crianças a diferenciar NECESSIDADE de DESEJO, participar com elas das feiras de troca, incentivar a doação de brinquedos, falar sobre as desigualdades sociais, as condições de trabalho das pessoas que fabricam esses brinquedos e as limitações de renda da própria família. Esses podem e devem ser assuntos tratados com crianças, desde que obviamente adequando-se à compreensão de cada idade.
É através do cotidiano que se faz a diferença, conversando a cada oportunidade sobre o acúmulo de objetos e o desapego. E assim construir nelas a noção de que as pessoas são mais importantes do que as coisas e muni-las com um modo de vida mais sustentável, maduro e menos vulnerável às amargas exigências do capital para serem felizes.

Micheli Krayevski Eckel
Psicologa CRP 12/8587