Claro que é importante ser educado com o garçom, a vendedora, ou com quem cruzamos na rua. Mas você já percebeu como, muitas vezes, é mais fácil ser educado com desconhecidos do que com as pessoas que convivem conosco diariamente, como nossos pais, irmãos ou cônjuges? Essa situação é comum a todos nós e a psicologia tem explicações sobre isso.
Segundo Freud, ser educado com
desconhecidos é mais fácil porque o esforço é passageiro. Interações em lojas,
restaurantes ou com prestadores de serviço são rápidas e superficiais. Nessas
situações, conseguimos reprimir nossa agressividade natural por um curto período,
mantendo a cordialidade e a polidez quase como se estivéssemos atuando em um
teatro social.
Já manter esse padrão de educação
e gentileza 24 horas por dia, especialmente com quem convivemos intimamente, é
praticamente impossível. Dentro de casa, a repressão constante de sentimentos
pode se tornar insustentável. Assim, a agressividade que seguramos no ambiente
social externo acaba “vazando” em casa, muitas vezes na forma de impaciência,
discussões ou pequenas “patadas” gratuitas nos familiares.
Freud também falou sobre o
“narcisismo das pequenas diferenças”. Ou seja, quanto mais próximos somos de
alguém, mais as pequenas diferenças nos incomodam. Por exemplo, o jeito do
parceiro mastigar ou o modo como um irmão fala pode nos irritar mais do que
atitudes semelhantes vindas de um estranho. Essa irritação é, na verdade, uma
tentativa inconsciente de reafirmar nossa individualidade.
A convivência constante destrói o
mistério e a curiosidade. Com pessoas desconhecidas, nos esforçamos para causar
boa impressão, mas com quem já conhece nossas virtudes e defeitos desde sempre,
esse esforço diminui. A intimidade traz conforto, mas também pode levar ao
descuido no trato diário. É fácil cair na armadilha de acreditar que não
precisamos mais impressionar ou tratar bem quem está sempre ao nosso lado.
Tratar bem quem está perto exige
um esforço consciente e diário. A intimidade é o terreno mais desafiador das
relações humanas, pois é onde somos verdadeiramente vistos, com todas as nossas
vulnerabilidades. Por isso, é importante não tomar as relações como garantidas
e lembrar que gentileza e respeito são fundamentais, principalmente dentro de
casa.
Assim, podemos dizer: Ser
simpático com desconhecidos é fácil porque a encenação dura pouco. Já com quem
amamos, o trabalho é constante e exige maturidade emocional para manter a
empatia, o respeito e a educação no dia a dia.
E você, qual foi a última vez que
perdeu a paciência com alguém querido? Vale a pena pensar nisso e buscar
melhorar, afinal, são essas relações que realmente importam.
Micheli Krayevski Eckel - psicóloga

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