domingo, 8 de fevereiro de 2026

Por que é mais difícil ser gentil com quem amamos?

 

Claro que é importante ser educado com o garçom, a vendedora, ou com quem cruzamos na rua. Mas você já percebeu como, muitas vezes, é mais fácil ser educado com desconhecidos do que com as pessoas que convivem conosco diariamente, como nossos pais, irmãos ou cônjuges? Essa situação é comum a todos nós e a psicologia tem explicações sobre isso.

Segundo Freud, ser educado com desconhecidos é mais fácil porque o esforço é passageiro. Interações em lojas, restaurantes ou com prestadores de serviço são rápidas e superficiais. Nessas situações, conseguimos reprimir nossa agressividade natural por um curto período, mantendo a cordialidade e a polidez quase como se estivéssemos atuando em um teatro social.

Já manter esse padrão de educação e gentileza 24 horas por dia, especialmente com quem convivemos intimamente, é praticamente impossível. Dentro de casa, a repressão constante de sentimentos pode se tornar insustentável. Assim, a agressividade que seguramos no ambiente social externo acaba “vazando” em casa, muitas vezes na forma de impaciência, discussões ou pequenas “patadas” gratuitas nos familiares.

Freud também falou sobre o “narcisismo das pequenas diferenças”. Ou seja, quanto mais próximos somos de alguém, mais as pequenas diferenças nos incomodam. Por exemplo, o jeito do parceiro mastigar ou o modo como um irmão fala pode nos irritar mais do que atitudes semelhantes vindas de um estranho. Essa irritação é, na verdade, uma tentativa inconsciente de reafirmar nossa individualidade.

A convivência constante destrói o mistério e a curiosidade. Com pessoas desconhecidas, nos esforçamos para causar boa impressão, mas com quem já conhece nossas virtudes e defeitos desde sempre, esse esforço diminui. A intimidade traz conforto, mas também pode levar ao descuido no trato diário. É fácil cair na armadilha de acreditar que não precisamos mais impressionar ou tratar bem quem está sempre ao nosso lado.

Tratar bem quem está perto exige um esforço consciente e diário. A intimidade é o terreno mais desafiador das relações humanas, pois é onde somos verdadeiramente vistos, com todas as nossas vulnerabilidades. Por isso, é importante não tomar as relações como garantidas e lembrar que gentileza e respeito são fundamentais, principalmente dentro de casa.

Assim, podemos dizer: Ser simpático com desconhecidos é fácil porque a encenação dura pouco. Já com quem amamos, o trabalho é constante e exige maturidade emocional para manter a empatia, o respeito e a educação no dia a dia.

E você, qual foi a última vez que perdeu a paciência com alguém querido? Vale a pena pensar nisso e buscar melhorar, afinal, são essas relações que realmente importam.



Micheli Krayevski Eckel - psicóloga

 

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