terça-feira, 23 de setembro de 2025

Carta sobre o Brincar na Clínica com adultos

 Mafra/SC, 23 de setembro de 2025

 

Queridas colegas,

Escrevo-lhes para compartilhar algumas reflexões sobre o brincar na clínica com adultos, inspiradas na leitura de Winnicott e na minha prática clínica.

Winnicott nos lembra que “o que quer que se diga sobre o brincar de crianças aplica-se também aos adultos; apenas, a descrição torna-se mais difícil quando o material do paciente aparece principalmente em termos de comunicação verbal… Manifesta-se na escolha das palavras, nas inflexões de voz e, sobretudo, no senso de humor” (O Brincar e a Realidade, 1971, p. 61 e 63). Ele ainda afirma que “a psicanálise foi desenvolvida como forma altamente especializada do brincar, a serviço da comunicação consigo mesmo e com os outros”.

A leitura desta obra me levou a considerar a aplicação clínica da análise da criança como modelo para o trabalho com adultos. Um paciente pode vivenciar experiências de qualquer idade cronológica, pois o tempo do inconsciente não é Cronos, mas Kairós. Buscamos ouvir o discurso inconsciente como se qualquer comunicação pudesse refletir o sonho do par analítico. As interpretações, nesse contexto, não se destinam a corrigir distorções da transferência, mas a promover transformações internas. Assim, o brincar assume papel relevante, trazendo características comuns na análise infantil (atividade, intensidade, curiosidade, prazer, exploração, abertura, espontaneidade), presentes em qualquer análise. Brincar serve para expandir a mente e favorecer sentimentos de sintonização emotiva.

O analista precisa dispor de conceitos atualizados que permitam intuir o que ocorre no plano inconsciente e compartilhado da relação, adotando um estilo de conversa simples, direta e espontânea. Consideramos a fantasia inconsciente e a realidade psíquica distintas do fato histórico do trauma; importa, portanto, a narrativa que pode emergir nos relatos clínicos. A função transformadora dos sonhos também é central: eles dão sentido à experiência vivida. No dizer de Civitarese, o sonho não pertence mais exclusivamente ao analisando, assim como a reverie não pertence apenas ao analista. Cada comunicação, verbal ou não verbal, integra o conjunto do par analítico.

Na sala de análise, o brincar deve se manifestar como um estilo de conversação coloquial, livre de altivez, arrogância ou severidade. Ferramentas como metáforas, paralelismos e humor permitem criar espaços para o pensamento e favorecer a contenção de emoções cruas. A conversa, mesmo quando aparentemente trivial, se sustenta em uma teoria sofisticada. Falar de modo evocativo, metafórico ou alusivo pode ser uma forma de estruturar novos vínculos, deixando espaço para o outro e para o silêncio, criando um ambiente receptivo e acolhedor. O jogo de palavras ou o humor usado pelo analista pode trazer reconhecimento (ou não) do clima emotivo da sessão pelo paciente, promovendo aspectos progressivos ou regressivos que devem ser observados com atenção.

O brincar na análise estende-se da psicanálise infantil, seguindo o modelo que estabelece a equação simbólica “brincar igual a sonhar”, centrado no uso que as crianças fazem da brincadeira, no conteúdo e no que ele representa, adaptado para adultos pela associação livre. Embora Freud tenha sugerido o jogo do carretel como referência, o que encontramos em Winnicott, Bion, Civitarese, Anne Alvarez e outros é uma perspectiva radicalmente intersubjetiva, que reconhece o nascimento psíquico social. Para Winnicott, o brincar é tanto a própria atividade lúdica quanto o espaço de confiança onde a brincadeira se desenvolve entre mãe e bebê. Ele facilita o crescimento, a saúde, os relacionamentos e é uma forma altamente especializada de comunicação consigo mesmo e com os outros. O brincar espontâneo pode remover bloqueios no desenvolvimento e, embora possa ser assustador se não mediado, permanece uma experiência criativa que exige continuidade no tempo e no espaço.

No brincar, situamo-nos entre o subjetivo e o objetivamente percebido. Surge o elemento surpresa, que é crucial. O contrário de brincar não é ser sério, mas ser real. Quando o material interpretado surge fora de contexto, promove submissão e desenvolvimento de falso self. Fenômenos transicionais e primeiros objetos não caminham para o brincar compartilhado e para experiências culturais. Poder brincar implica amparo materno e envolve o corpo. Como lembra Anne Alvarez: “Por mais negativo que seja o conteúdo das brincadeiras e da imaginação, a simples capacidade de brincar e de usar a imaginação para criar formas implica certo nível de esperança” (O coração pensante, 2010).

Winnicott ressalta que o encontro com o self não ocorre por produtos do corpo ou da mente, nem por conhecimento ou explicações, mas por novas experiências em um setting especializado. É necessário viver a experiência, sofrer e experimentá-la, mesmo sem propósito definido, em um estado de “amorfa” ou regressão benigna (Balint). Quando há provisão ambiental, confiança e espaço de comunicação sem intenções ou memórias, o paciente pode sentir-se “sendo um” com o analista, comunicando-se de forma direta e confiável, podendo existir como unidade. O terapeuta deve estar aberto ao absurdo, ao inusitado, acreditando na possibilidade de transformação.

Um exemplo clínico ilustra essas ideias: Josi, 62 anos, veio preocupada com mudanças em seu comportamento após uma reunião social. Sua condição emocional, até então oscilando entre atividade intensa e apatia, intensificou-se com tristeza, ansiedade, medo e somatizações, gerando irritação e dificuldades nos vínculos familiares. Josi nunca havia feito acompanhamento psicanalítico, embora tivesse enfrentado perdas significativas ao longo da vida, incluindo a morte de amigos e do cônjuge. Seus atendimentos prévios eram psiquiátricos e medicamentosos.

Josi apresentava um diálogo que escondia uma vitalidade assustada, desejando e temendo a finitude. Durante muitos meses relutou, buscando retornar à vida que tinha antes, tentando se livrar da sensação de aperto e sufocamento no peito. Lentamente, seus relatos de raiva e tristeza, inicialmente atribuídos a fatores externos, como uma mãe inadequada ou a passagem do tempo, começaram a se deslocar para o desconforto de ser quem é hoje, enfrentando limitações físicas e cognitivas.

Ela frequentou todas as sessões pontualmente, retomou atividades físicas e sociais, e gradualmente expandiu sua capacidade de humor, brincar e narrar experiências passadas e presentes. A cada fato apresentado, associava uma música, recuperando gosto pelo cinema também. Em uma sessão, cantou com voz suave e afinada, surpreendendo-se:

“Reconhece a queda
Mas não desanima...”

E eu continuei cantando junto com ela:

 “Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”.

O brincar, a música, os textos e poemas antigos, trazidos à análise, tornaram-se ferramentas para atualizar narrativas e possibilitar novos vínculos afetivos.

Chamo Josi, metaforicamente, de buraco negro, seguindo a metáfora de Ofra Eshel para pacientes que carregam experiências traumáticas precoces ou primitivas, que não podem ser plenamente simbolizadas. Winnicott nos lembra que áreas de não integração só podem ser vividas, não lembradas nem pensadas, constituindo núcleos de intensidade radical. Um trauma pode gerar colapso do eu, inacessível à tradução imediata. O analista trabalha próximo desse horizonte, sustentando a experiência junto ao paciente, sabendo que nem tudo pode ser nomeado. Josi construiu mitos sobre sua identidade, não foi a filha amada de sua mãe, e esses temas surgem nas imagens que traz, permitindo diálogo produtivo. A vitalidade a assusta; ser importante ou elogiada é temido. Lida com limitações atuais, comunicação digital e a consciência da finitude, encontrando na análise espaço de sustentação.

É nesse espaço, não de interpretações imediatas, mas de presença e acolhimento, que mesmo a escuridão mais densa pode ser compartilhada sem risco de implosão. Aceitamos a inevitável frustração de não poder fazer tanto nem tão perfeito. Este trabalho delicado exige criatividade positivada, esculpindo o campo analítico com cuidado e atenção. Como nos lembra Winnicott, “quando o brincar não é possível, então o trabalho do terapeuta visa levar o paciente do estado de não ser capaz de brincar para o estado de ser capaz de brincar” (O Brincar e a Realidade, 1971).

Escrevo-lhes esta carta para compartilhar como o brincar em análise de adultos pode ser instrumento de transformação, sustentação e criação de novas funções psíquicas, reafirmando a centralidade da relação analítica e da presença do analista como facilitadora desse processo.

Fico à disposição para novas trocas e compartilhar

Abraço,
Micheli Krayevski Eckel

 

 

domingo, 30 de março de 2025

Sobre o casamento

 Qualquer pessoa que esteja em um casamento ou em um relacionamento longo sabe que essa é uma jornada cheia de altos e baixos. Às vezes, tudo flui bem. Outras vezes, parece que nada está funcionando. Há momentos em que você e seu parceiro evoluem juntos. Em outros, pode parecer que estão seguindo em direções completamente opostas.

E isso é completamente normal. Os relacionamentos são dinâmicos e, por mais que desejemos preservar o encanto e a intensidade do início, essa não é a realidade de um casamento. O amor passa por fases, com avanços, retrocessos e momentos de estagnação. A única certeza é que o casamento muda com o tempo.

 

Especialistas em relacionamento desenvolveram formas de avaliar o estado atual de uma relação. Uma delas é a Escala de Satisfação Conjugal. Reflita sobre cada uma dessas afirmações e veja se seu relacionamento precisa de mais atenção:

• Meu parceiro e eu nos entendemos bem.

• Estou satisfeito com a personalidade e os hábitos do meu parceiro.

• Estou feliz com a forma como lidamos com nossas responsabilidades no casamento.

• Meu parceiro compreende e respeita meus estados de espírito.

• Nossa comunicação é boa e sinto que meu parceiro me entende.

• Nosso relacionamento é um sucesso.

• Estou satisfeito com a forma como tomamos decisões e resolvemos conflitos.

• Estou feliz com nossa situação financeira e com a maneira como tomamos decisões sobre dinheiro.

• Minhas necessidades emocionais e afetivas são atendidas.

• Estou satisfeito com o tempo de qualidade que passamos juntos.

• Estou feliz com a maneira como expressamos afeto e nos relacionamos sexualmente.

• Estou satisfeito com a forma como cada um de nós assume suas responsabilidades como pais.

• Nunca me arrependi do meu relacionamento, nem por um momento.

• Estou satisfeito com nossa relação com familiares e amigos.

• Me sinto bem com a maneira como cada um de nós pratica suas crenças e valores.

 

Testes como esse oferecem apenas um retrato momentâneo da sua relação. Mas é importante lembrar que o casamento é um organismo vivo, sempre em transformação. Dividir a vida com alguém exige disposição para crescer juntos, para evoluir como indivíduos e como casal.

 

Como fortalecer seu relacionamento?

 

Se você sente que sua relação precisa de mais atenção, ou mesmo se quer torná-la ainda mais saudável, aqui estão algumas sugestões:

 

1. Comunicação honesta

 

É essencial compartilhar sentimentos, preocupações e até bobeiras do dia a dia de forma aberta e respeitosa, sem medo de julgamento. A confiança se constrói tanto nas conversas sérias quanto nas leves. Pode ser dividindo uma fofoca, um problema no trabalho ou simplesmente sentando juntos no fim do dia para tomar um chimarrão e colocar o papo em dia.

 

2. Respeito pela individualidade

 

Cada um precisa ser uma pessoa inteira dentro do relacionamento. Fabio Jr. canta “as metades da laranja, dois amantes, dois irmãos”, mas talvez ele não entenda tanto assim de casamento — afinal, já se separou algumas vezes! A verdade é que ninguém completa ninguém. Cada um tem sua história, seus sonhos, sua forma de ver o mundo. No casamento, o papel do parceiro não é preencher o outro, mas ser um apoio no caminho que cada um escolhe trilhar. E, quando as decisões afetam a família como um todo, a comunicação honesta é o que permite encontrar o melhor caminho para todos.

 

3. Aconchego

 

Um relacionamento saudável precisa ser um porto seguro. O casamento deve ser o lugar onde você pode relaxar, onde se sente acolhido e protegido. Lá fora, o mundo pode estar um caos, mas em casa, ao lado do seu parceiro, você deve encontrar segurança para compartilhar suas dores, medos e alegrias sem medo de julgamento. O casamento não pode ser um campo de batalha – precisa ser um refúgio.

 

4. Amor genuíno

 

E, por fim, o amor verdadeiro é aquele que te aceita exatamente como você é. Sem precisar caber em expectativas. Sem precisar esconder defeitos. Amor é se sentir querido mesmo descabelado, cantando desafinado ou dançando esquisito. Amor é ter a certeza de que seu parceiro escolheu você todos os dias, na alegria e na tristeza, no churrasco e no ovo frito.

 

Meu casamento não é perfeito. Pelo contrário, temos nossos desafios. Mas uma coisa que nunca duvidei foi do amor que ele sente por mim.

Esses dias, disse a ele que nosso amor é diferente de todos os outros. Minha mãe, minhas irmãs e minha filha me amam, mas esse amor vem de um laço familiar, de sangue. Ele, não. Ele me escolheu. Entre todas as pessoas do mundo, sou a preferida dele. Ele me ama com meus defeitos, vulnerabilidades e dificuldades. E a recíproca é verdadeira.

E talvez seja isso que faz um casamento durar: a decisão diária de escolher um ao outro.

Nem todos os dias serão fáceis, nem sempre estaremos na mesma sintonia, e algumas fases parecerão mais desafiadoras do que outras. Mas, no fim das contas, o que realmente importa é o compromisso de seguir juntos, de se reinventar, de buscar o equilíbrio entre o individual e o coletivo.

 

Relacionamentos longos não são sustentados apenas pelo amor romântico, mas pela amizade, pelo respeito e pela vontade genuína de construir algo juntos. São feitos de momentos simples, de risadas compartilhadas, de mãos dadas mesmo nos dias difíceis.

Então, se há carinho, se há parceria e se há o desejo mútuo de continuar, o casamento pode ser um espaço de crescimento, acolhimento e felicidade. Não perfeito, mas real.

 

Porque no fim das contas, amor não é sobre encontrar alguém que nunca te magoa ou que sempre acerta. Amor é sobre encontrar alguém que vale a pena perdoar, aprender e recomeçar, todos os dias.

E se, apesar de tudo, você ainda escolher essa pessoa — e ela escolher você — então, vale a pena continuar.

 

 

 

Os "nãos" necessários!

Você já parou para pensar como pode ser difícil aprender a dizer “não”?

Curiosamente, o “não” é uma das primeiras coisas que aprendemos quando somos bebês. O movimento de balançar a cabeça negativamente faz parte do nosso desenvolvimento infantil. Desde cedo, a criança aprende a impor e compreender limites. “Não quero”, “não gosto”, “não vou”…

Mas, com o tempo, vamos perdendo essa habilidade. Passamos a querer agradar os outros e, muitas vezes, nos esquecemos de agradar a nós mesmos.

Aceitamos nos desagradar por medo de desagradar os outros.

E, para nós, mulheres, essa dificuldade parece ainda maior, especialmente nos relacionamentos amorosos. Somos ensinadas a sermos boazinhas, a falar baixo, a concordar, a estar sempre disponíveis, a não contestar. Crescemos acreditando que dizer “não” é ser rude, inadequada, indesejada. Muitas mulheres, por exemplo, se submetem a relações sexuais sem vontade, apenas para evitar desagradar o parceiro. Não têm coragem de dizer “não”.

Será que temos medo de sermos rejeitadas? De sermos julgadas?

 

No trabalho, quantas vezes ficamos sobrecarregadas por não termos coragem de recusar demandas? Quantas vezes aceitamos salários injustos, com medo de perder o emprego? Nos submetemos por insegurança, por receio de desagradar.

 

E, paradoxalmente, além de termos dificuldades para dizer “não”, também não gostamos de ouvi-lo. É difícil suportar as frustrações que os “nãos” da vida nos fazem sentir.

Mas hoje, com mais consciência, percebo que muitos dos “nãos” que recebi me empurraram para a construção de quem sou. As portas que se fecharam abriram caminho para novas oportunidades.

 

O “não” de um pai ou de uma mãe constrói caráter! Se meus pais não tivessem sido firmes em seus “nãos”, eu não teria desenvolvido noção moral de certo e errado.

 

Precisamos reaprender a dizer: não quero, não vou, não gosto, não desejo. Mas, para isso, é essencial que saibamos, de fato, o que queremos para a nossa vida.

 

Dizer “não” é um ato de honestidade.

Um “não” para o outro pode ser um lindo “sim” para você!

Então, da próxima vez que sentir vontade de dizer “sim” apenas para agradar, pergunte-se: estou sendo fiel a mim mesma? Esse “sim” é um reflexo do que realmente quero?

 

Dizer “não” é um direito. É um ato de amor-próprio. É o caminho para uma vida mais autêntica, livre e alinhada com quem realmente somos.

Que possamos, cada dia mais, ter coragem de dizer “não” quando for preciso — e, principalmente, sem culpa.




 

Abraço

Micheli Krayevski Eckel

Psicóloga

 

domingo, 4 de setembro de 2022

Os Filhos de Alcoolismo

Com o passar desses mais de 10 anos em que trabalho com dependência química, algo que nunca me passou despercebido foi a relação que o meu paciente tinha com o seu pai. Afinal, me parece, que a dependência química é uma história de amor com o pai. Essa relação tão marcada por amor e por ódio. Sim, onde há muito ódio, há muito amor também!
Na prática clínica é perceptível a referencia de idolatria que o meu paciente tem para com a mãe - em torno dela é construído um santuário, uma imagem idealizada dos acertos e por uma suposta razão. E quanto ao pai o que aparece é um desprezo fixado em mágoas e fortes ressentimentos.
Nem tão ao céu, nem tão ao inferno. É preciso equilibrar essas relações. Já que para alcançar a maturidade emocional de um adulto, o necessário é reconhecer a figura importante de ambos. E também a consciência de que cada um fez aquilo que lhe era possível ser feito. O treino deve ser de reconhecimento e perdão.
Os estudos da teoria Winnicottiana é baseada com o bebê no colo de sua mãe. Esse bebê com uma tendência para o amadurecimento, mas ainda assim, mesmo essa tendência sendo inata, há a necessidade em se contar com um ambiente que propicie esse processo.
Winnicott também considerou de forma importante o pai, pontuando e descrevendo seu papel em todas as etapa do processo de amadurecimento pessoal.
 
Obs: Mantêm-se a premissa de que a mãe é o primeiro ambiente do bebê e esta precisa oferecer um colo suficientemente bom, mas entende-se que a qualidade deste colo dependerá fundamentalmente do "colo" oferecido para a ela. Este, que se dá de forma muito mais adequada, quando oferecido pelo pai da criança. Então, o pai é o responsável por ser o holding da mãe. Possibilitando a ela uma total dedicação para com o lactante, ela podendo ser uma mãe devotada.
 
Nos primeiros meses de vida (chamado por Winnicott de fase de dependência absoluta), o pai atua de forma a substituir a mãe diante de uma necessidade, oferece ao bebê os mesmo cuidados que a mãe lhe dispensa.
Em “Da Pediatria à Psicanálise”, Winnicott escreveu que é fundamental que o pai seja verdadeiramente importante para a mãe, num sentido dramático e existencial, permitindo o estabelecimento de uma relação mãe-filho saudável. Deste modo, o bebê poderá integrar-se com auxílio da presença paterna. O pai não “duplica” o cuidado materno, mas aparece como elemento inscrito num processo de diferenciação da alteridade.
Isso numa família saudável...
 

Agora, pense em uma mãe de primeira viagem, com o seu bebê recém nascido, com todas as demandas dela (alterações físicas, hormonais, emocionais...), mais todas as demandas do bebê, e mais ainda preocupada que o pai da criança não chegou em casa depois do trabalho, imaginando que ele deve estar no bar com os amigos, gastando o dinheiro reservado para as contas do mês. Ou ainda a preocupação de que quando ele chegar estará alcoolizado.
Não sei se é de seu conhecimento, se você já viu um bêbedo...
Normalmente um homem sob efeito do álcool fica expansivo, dono da verdade, cheio de razão, chato e por muitas vezes agressivo.
Esse bebê, em simbiose com a mãe, sentirá toda essa ansiedade, bem como irá vivenciar junto dela a expectativa e o caos causado com a chegada desse pai.
Percebe que a função do pai em substituir a mãe já esta fadada ao fracasso? Pois a mãe, com razão, não confia que esse homem seja capaz de ser suficientemente bom nos cuidados para com o seu bebê. Aqui há uma fixação da simbiose. Pois o corte que seria necessário que o pai fizesse, já não vai acontecer. Por falha de ambos! Incapacidade dele e medo dela.
O pai não transmitirá a segurança necessária, não fará o holding para a mãe. A mãe tentará substituí-lo.
Esse bebê não terá um ambiente bom para desenvolver sua segurança interna. Ouso dizer, que aqui está um dos maiores prejuízos que os filhos do alcoolismo sofrem: Passam a ser pessoas sem o mínimo de segurança possível para seu amadurecimento emocional. São bebês e posteriormente adultos inseguros. Tem medo da vida! Não consegue sentir segurança no ambiente, no mundo lá fora e muito menos no seu mundo interno. Aqui, possivelmente, está a base da ansiedade, da depressão e até mesmo de um possível desenvolvimento da dependência química.
Pode-se dizer, que as marcas emocionais permanecerão por toda a vida. Esse bebê se tornará um adulto que não conseguirá confiar em ninguém, muito menos em si mesmo. Trará consigo a incerteza, que virá a provocar persistente angústia; sentimento de impotência diante das situações cotidianas; baixa autoestima; sentimento de culpa (o pai alcoolista muitas vezes culpa os filhos pelo caos familiar, e eles acabam introjetando esse sentimento); herdará também dificuldade em expressar afetos; falta de perspectiva de futuro...
 
Quando se trata de um segundo momento (que Winnicott chamou de dependência relativa), num ambiente familiar saudável, o principal papel desempenhado pelo pai é a de chamar a mãe para si. Ela estava distante dela mesma, física e emocionalmente, distante do marido, da casa e de todas as outras relações. O pai é quem “lembra” a mãe que ela também é uma mulher, de modo que ela tenha mais um ponto de apoio para recuperar aspectos de sua personalidade e de retomar, aos poucos, a amplitude do mundo que havia sido estreitado pela preocupação materna primária.
 
* Importante ressaltar que a entrada do pai na vida da criança não é violenta ou traumática, e nada tem a ver com qualquer situação em que esteja implicada uma separação brusca da mãe. As mudanças vão ocorrendo dentro da relação mãe-bebê, na natureza desta relação, e não a partir da dissolução dela. O pai aqui não é o interditor, ao contrário, ele é o sustentador, para que o amadurecimento natural possa ir ocorrendo.
 
No ambiente familiar alcoolista, a relação simbiótica permanece, pois o pai não entra. Essa adoração para com a mãe impede que a criança venha a se desenvolver de forma saudável. Grande parte dos dependentes químicos são uns “bebezões”. Homem adulto por fora, mas emocionalmente imaturo. Incapaz de cuidar de sua própria vida sozinho.
Na dependência química, a ‘química’ é o menor dos detalhes. As relações de ‘dependência’ é o maior agravante deste tipo de personalidade. É dependente emocionalmente, financeiramente e tem muita dificuldade para resolver sozinho os problemas da vida. É a mãe quem o leva procurar emprego, quem paga suas contas e compra suas roupas. É a mãe que tenta incansavelmente resolver seus problemas. Ela quem escolhe as parceiras, mesmo achando que mulher nenhuma é boa o suficiente para o seu “bebê”. Homem que depende da mãe e que posteriormente buscará uma mulher para substituir essa função materna.
 
Também na fase da dependência relativa é responsabilidade do pai posicionar-se de modo a proteger a mãe dos ataques da criança, já que nesta etapa a criança se depara com o processo de desilusão. É nesta fase que o bebê vê o primeiro sinal do pai, ainda através da mãe. O pai é o primeiro modelo de integração para o bebê, assim é usado por ele como um padrão para sua própria integração.
No livro “O ambiente e os processos de maturação” Winnicott diz: “...o pai pode ser o primeiro vislumbre que a criança tem da integração e da pessoalidade total. O bebê utiliza o pai como uma espécie de diagrama para a sua própria integração, num momento em que esta integração ainda não foi conquistada por ele.”
Quando se trata de um pai saudável, é lindo falar de integração.
Quando se trata de um pai alcoolista, estamos falando de uma repetição de comportamentos negativos.
Os filhos de alcoolistas tem 6 vezes mais chances de desenvolver uma dependência (dependência química, de jogos, sexo, compulsão alimentar). 6x mais chance do que filhos de pai não alcoolista! Além de apresentarem mais frequentemente sintomas psicopatológicos desde a infância. Tem mais disfunções cognitivos, problemas de aprendizagem, precocemente sintomas de ansiedade, depressão...
 
Como o quadro de alcoolismo é crônico e as manifestações de violência física e psicológica costumam ser persistentes e ir se acentuando. Com a repetição, fica quase impossível curar as feridas naturalmente. E elas vão formando a personalidade de uma pessoa instável emocionalmente; alimenta comportamentos impulsivos e compulsivos; é uma pessoa que tem dificuldade de terminar os projetos que inicia – abandona escola, cursos, trabalhos...; é uma pessoa que encara as coisas com um excesso de seriedade, tendo problemas para reservar momentos para a diversão e o prazer – e o álcool e as drogas chegam aqui para tentar alcançar esse prazer faltante, vem como entretenimento e anestesia.
 
Considero importante também citar as possíveis consequências destas falhas no que diz respeito à sociedade. Tendo em vista, que o papel do pai é de referência hierárquica, de colocar limites, preparar o filho para as relações interpessoais, e consequentemente para a convivência em sociedade. Aparece aqui o deprivado, das condutas delinquentes e da tendência antissocial.
 
Em processo de psicoterapia, é comum para o filho de alcoolista se deparar com a repetição dos comportamentos que tanto ele abomina no pai. Ele vai se perceber negligenciando ou até mesmo abandonando os filhos, não prestando cuidados para eles e para a esposa. Perceberá praticando violência física e psíquica, igualzinho como recebeu. Irá se perceber sendo um péssimo modelo de homem.
Para que os filhos do alcoolismo possam superar essa marca emocional e curar as feridas deixadas pela relação com o pai, precisará entender ‘o que’ o trouxe até o presente momento. Essa percepção, somada a outros insigths, pode favorecer a motivação para a mudança. Quebrar esse ciclo de repetição, que já era do avô, do pai... e ele optar por não querer reproduzir no seu filho. Isso passa a ser parte do desejo de alguém que procura mudança de vida.
 
Não fique sozinho! Peça ajuda!
 
* As palavras que destaquei em itálico são comuns na linguagem da psicanálise winnicottiana. Se não conseguir compreender, me disponho a te ajudar. Pode me chamar
 
Abraço,
 
Micheli Krayevski Eckel
Psicóloga
Psicanalista em construção
(47) 99193-6553 

terça-feira, 24 de maio de 2022

Erros que os Pais cometem com filhos Adolescentes


Ser pai/mãe de adolescentes é sempre um desafio. Para educar é preciso tolerância, paciência, esforço, bom senso e ser bom exemplo. Até porque diferente das crianças, os adolescentes sempre, eu disse SEMPRE, irão nos questionar como pais.

É importante lembrar que nessa fase da vida, as pessoas estão decidindo o que querem ser, não só profissionalmente, mas também como ser humano. É preciso evitar ao máximo tanto a indulgência quanto a rigidez para que os adolescentes possam se sentir seguros.

 

Sei que nós pais, queremos que nossos filhos não sintam nenhum tipo de desconforto ou sofrimento. Mas para o processo de amadurecimento, ambos são indispensáveis. Afinal, você não estará para sempre ao seu lado para o proteger e defender. Não poderá evitar as suas dores para sempre. E a vida adulta é cheia de obstáculos e os filhos devem estar preparados para enfrentá-los. Ensine seus filhos a enfrentar desafios e se defenderem sozinhos.

 

Obviamente, não existem pais perfeitos – não existe ninguém perfeito! Mas tem alguns erros que percebo em minha prática clinica com adolescentes que considerei relevante descrever para alertar os pais.

Seguem os principais erros que observo em pais de adolescentes:

 

Erro 1- Os filhos que são o centro do universo

Sei que para a maioria dos pais, seus filhos são a coisa mais importante da sua vida. E não tem problema demonstrar seu amor a eles, pelo contrario, expressar o seu amor é fundamental. No entanto, uma pessoa que, mais do que amada, é praticamente idolatrada cresce pensando que o mundo gira ao seu redor.

Ame o tanto que você puder e como quiser, mas evite que sejam criados na base do egoísmo e da superioridade. Assim, você os ajudará a ter uma autoestima sólida, mas com os pés no chão.

Outro fator importante na questão de autoestima, é que você é modelo de comportamento para seus filhos. Então, você precisa ensiná-lo que primeiro eu ME AMO e depois transfiro esse amor para os outros. Eu preciso ser a pessoa mais importante da minha vida. (veja mais sobre isso no Erro 6)

 

Erro 2 - Meus filhos são perfeitos

O ideal que você vê em seus filhos não existe!

Receba abertamente as opiniões das outras pessoas que convivem com seus filhos. Professores, amigos, outros familiares podem te trazer aspectos de seus filhos que talvez você não esteja enxergando.

O melhor que você pode fazer pelos seus filhos é os escutar atentamente e observar seus comportamentos, sem o filtro do amor cego. Eles estão construindo sua identidade. Assim, ainda há tempo para ajudá-los a corrigir alguns comportamentos.

 

Erro 3 - Viver através dos filhos

Os filhos não são extensões dos seus sonhos e das suas expectativas. Eles têm suas próprias vidas, metas, desejos e aspirações. Não o pressione a ser quem você gostaria de ser.

As atividades que eles realizam devem estar alinhadas em busca da sua própria felicidade, e não para a satisfação dos pais. Os filhos adolescentes não são segundas oportunidades para os pais. Eles são seres autônomos que devem trilhar o próprio caminho.

 

Erro 4 - Pai/Mãe como melhor amigo

Um dos grandes problemas da sociedade atual é que muitos pais não se comportam como pais, querem ser amigos. O desejo de receber amor e aceitação por parte dos filhos faz com que o papel de pai e mãe acabe se confundindo.

Tenha consciência que é normal que seus filhos às vezes fiquem bravos com você e não estejam de acordo com as suas decisões. A permissividade deve ser evitada ao máximo se você quer ensinar respeito e limites aos seus filhos.

Pense comigo: amigos seus filhos podem encontrar aos montes por ai. Pai/Mãe ele só tem você. E ele precisa que você exerça essa função para que ele possa amadurecer e se desenvolver um adulto saudável.

 

Erro 5 - Perder tempo em família

Não há nada mais enriquecedor para uma família que passar tempo de qualidade juntos. Embora os horários de trabalho e escola, o cansaço e as tarefas domésticas dificultem, sempre é preciso encontrar uma maneira de se encontrar e estar por perto.

Seja uma refeição que todos se sentam à mesa (sem celulares), um passeio que fazem juntos, ver um filme, algum jogo... cada família precisa encontrar sua atividade para passar um bom tempo juntos.

A parte boa de seus filhos serem adolescentes é todo o caminho que já percorreram para chegar até essa fase. Um pai ou uma mãe presente é o melhor presente que você pode oferecer aos seus filhos.

 

Erro 6 - Esquecer da importância do bom exemplo

Os pais têm a difícil tarefa de ser o exemplo das atitudes que exigem dos filhos. Se você quer que seu filho seja a melhor versão de si mesmo, esse é o momento para você também começar a ser. Eles te observam permanentemente e aprendem com tudo que você faz.

Palavras convencem e exemplos arrastam!

 

Erro 7 - Evitar que passem por adversidades

Para que seus filhos tenham confiança, resiliência e persistência, ele precisa superar seus próprios desafios. Cada dificuldade superada na vida diária agrega valores na vida da pessoa. A satisfação de se sentir capaz e independente, fará com que a criança ou o adolescente se torne um adulto forte e amadurecido.

 

No longo caminho de educar nos deparamos com grandes desafios. Embora não exista uma única maneira de fazer as coisas, evitar esses erros vai levar você por um caminho mais seguro. 

A adolescência é uma das fases mais bonitas e difíceis das suas vidas. Acompanhe seu filho, esteja a uma distancia segura, o autorize a crescer.

 

Dica: Frente a dúvidas e dificuldades, primeiramente olhe para dentro de si e confie nos valores que você quer transmitir para seu filho. Se não encontrar respostas convincentes, procure ajuda profissional.

 

Abraço

Micheli Krayevski Eckel

Psicóloga

 

segunda-feira, 11 de abril de 2022

Abandono Materno e as Consequências na Vida Adulta

Sentir a presença da mãe, seu calor, seu olhar e carinho ao chegar ao mundo, é uma das maiores necessidades que um ser humano sente ao longo de sua vida. Emocionalmente falando, não haverá coisa que precisaremos mais. Nos primeiros momentos de nossas vidas, nós somos uno com ela e posteriormente, quando a reconhecemos como um outro, somos capazes de aceitar tudo que ela nos faz. Se nos critica duramente ou se nos despreza, somos capazes de perdoá-la em um piscar de olhos. Na verdade, nem nos atrevemos a questionar o que nos fez, mas nos culpamos por tê-la irritado, chateado ou a deixado triste. Afinal, o que mais tememos é que ela nos abandone.

Por mais disponível que uma mãe seja, às vezes ela tem que se ausentar. Pouco a pouco aprendemos a lidar com essas breves ausências, mesmo que a contra gosto. Se por algum motivo nossa mãe se ausenta por maior parte do tempo, se abre uma ferida difícil de cicatrizar. E quando a mãe está totalmente ausente, principalmente nos primeiros anos de vida, o dano emocional é tão grande que deixa uma marca definitiva.


A criança não tem escapatória, se não conta com uma mãe suficientemente boa, irá construir sequelas dessa relação.

Comumente essas pessoas são encantadoras, muito agradáveis e de fácil trato. Aprenderam que devem “se comportar bem” e ser o que os outros esperam, para que assim, não sejam novamente abandonadas. 

Há pessoas que chegam à vida adulta se sentindo aterrorizadas nas situações em que precisam ficar sozinhas. Quando não há ninguém em casa, por exemplo, um poço de angústia é aberto dentro delas, no qual se sentem afogados. São como crianças aterrorizadas que sucumbem ao medo e a solidão.

A ausência da mãe também pode estar relacionada a origem de muitos distúrbios de sono e da alimentação. Talvez a mãe quisesse que seu bebê comesse e dormisse, e o manipulava sem prover sua presença completa. Aí que o comer demais, ou não comer, bem como o não dormir, às vezes, pode se tornar uma maneira de contrariá-la, de cobrar uma dívida. Embora quem acabe pagando essa conta, seja a própria pessoa.

Uma mãe que se ausenta frequentemente e por longos períodos pode induzir um forte estado de ansiedade no seu filho. Há medo quando sai, mas também há medo quando volta, porque a criança não sabe quando sairá novamente. Há mães que ainda utilizam esse terrível medo para “controlar” seus filhos – ameaça abandoná-lo quando não obedecem. Essa ausência não constrói o carinho e desorganiza as emoções. No final, a saída é bloquear os sentimentos amorosos. Às vezes, cultiva um ódio por ter sido submetido a esse círculo vicioso fatal de querer e perder, de novo e de novo.

Uma mãe ausente pode dar origem a seres humanos distantes, embotados, bravos e tristes. Seus filhos aprendem, pouco a pouco que precisam lidar com o mundo sozinhos. Então, para sobreviver a essa situação, que as crianças sentem como muito perigosa, às vezes colocam máscaras: o simpático, o obediente, o insensível, o agressivo... Quando adultos, essas pessoas terão dificuldade em reconhecer o que há por trás dessa máscara que inventaram para lidar com o abandono.

O que é perdido com uma mãe que abandona é a confiança nos outros. Também a esperança de que alguém possa responder às necessidades ou até mesmo nos amar. A partir disso, na vida adulta, amamos tentando criar laços de dependência, que falham repetidamente. O que uma mãe ausente deixa é um ser humano que aprende a estabelecer vínculos de insegurança, desconfiança e, sobre tudo, ansiedade. 

terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

Sobre ter (e ser) Mãe

A antiga bênção de Nahualt tem um trecho que diz assim: “Eu liberto meus pais do sentimento de que já falharam comigo”. Penso nas inúmeras vezes que julguei as “faltas” de minha mãe, mesmo quando o erro nem era dela. Talvez pela minha necessidade de achar um bode expiatório para os meus problemas, traumas, angustias e aflições, o caminho mais simples e seguro sempre foi acusar a pessoa que mais fácil me perdoaria: minha mãe.

Após um processo caminhado, hoje, definitivamente, quero libertar minha mãe do sentimento de qualquer culpa. Quero que ela saiba que mesmo que eu discorde de algumas atitudes tomadas no passado, sei que ela fez o que julgou que seria o melhor naquele momento. Tenho a plena convicção de que ela deu o seu melhor. Desejo que ela se sinta leve, sem arrependimentos ou culpas, e que perceba o quanto serviu de base e exemplo para nossa família. Quero que minha mãe saiba que reconheço o seu esforço. Que saiba o quanto sou grata e o quanto aceito os caminhos que trilhou com o intuito de que fôssemos felizes.

Conhecendo minha mãe, sendo mãe e ouvindo muitas mães em minha prática clínica, entendi que mãe falha tentando fazer o melhor e sempre por amor. Mãe falha pela ausência, tentando passar um exemplo de independência, de trabalho, para dar uma condição financeira melhor da que teve. Mãe falha pela presença, tentando ser apoio, companhia e até monitoramento estressante. Falha privando e frustrando; falha mimando e cuidando. Falha em defesa de seus filhos; falha tentando ser sensata e imparcial. Mãe falha sofrendo as nossas dores; falha ignorando os sinais, que na maioria das vezes todos em volta já estão enxergando. Falha suportando tudo, colocando tudo pra debaixo do tapete; falha também rodando a baiana e colocando os pingos nos is. Porém, o que mãe não faz, é desistir. Mesmo falhando, ela está ali, tentando, tentando, tentando... E mesmo errando, continua tentando acertar.

Crescemos, estudamos, adquirimos novos hábitos e costumes, e percebemos que nem tudo foi perfeito na casa onde nascemos. Ficamos críticos, passamos a discordar da educação que tivemos e tentamos agir de outro modo com nossos filhos. Porém, também passamos a repetir aquilo que foi bom. Sem querer, nos flagramos repetindo falas e trejeitos de nossos pais, repetindo brincadeiras, receitas, tentando eternizar tradições familiares.

Hoje, meu desejo é perpetuar o amor de minha mãe por suas filhas e a sua perseverança de tentar. Desejo que, ao entrar em casa, eu esqueça o peso do meu dia e possa ser leve e presente na companhia de minha filha. Que eu possa inspirá-la a fazer o bem, ser forte e paciente, mas acima de tudo, que ela entenda meu desejo de que seja mais amorosa consigo mesma. Que eu consiga acertar mais que errar, mas que ela perdoe minhas faltas, entendendo que sou aprendiz, e sempre desejo o seu bem. Que minha força de minha mãe se faça presente em alguns de meus pensamentos e gestos, me ajudando a repetir e aperfeiçoar a expressão do amor. E que, ao entregar minha filha para o mundo, eu possa confiar no tempo que passamos juntas e acreditar, com satisfação, que ela estará segura e em paz. E que ao ver minha filha voltar, espero enxergar em seus olhos o brilho de quem encontrou seu caminho, ou pelo menos está tentando.

Bem na verdade o que as mães querem é que seus filhos amadureçam, enfrentem a vida com dignidade e principalmente que seus filhos sejam felizes!


Micheli Krayevski Eckel

 

terça-feira, 31 de agosto de 2021

Prevenção à Condutas Antissociais na Primeira Infância

É sabido o quanto acontecimentos na infância influenciam na caracterização de nossa personalidade. Fatos traumáticos, violência familiar, bullying escolar, entre outros, acabam por desencadear comportamentos disruptivos. Esses comportamentos que por muitas vezes passam a ser punidos e vem junto um discurso moralista por parte dos adultos ao seu entorno, mas na realidade não passam de um grito de socorro! É um sinalizador de que há algo falho emocionalmente nessa criança e que ela precisa de um ambiente suficientemente bom pra lhe dar suporte.

Como trabalho com dependência química, por inúmeras vezes as escolas, empresas e outras instituições me chamam para fazer prevenção ao uso de drogas, mas isso não é possível. Não existe palestra no mundo que vá fazer alguém não vir a desenvolver a desvinça e a dependência química. A ação que funciona seria habilitar as famílias, em especial as mães, a fornecerem um ambiente saudável para o bebê desde o seu nascimento.

Há mães que, por algum motivo, não cumprem satisfatoriamente as funções de uma mãe suficientemente boa. Realizam uma maternagem deficiente, que pode conduzir ao surgimento de um sintoma ao longo do processo de amadurecimento. Embora a preocupação materna primária seja um estado psicológico naturalmente desenvolvido com a vinda de um bebê, existem mulheres que resistem em assumir esse papel. Dedicada a outras atividades, algumas mulheres não conseguem e não permitem uma identificação, uma ligação com seu bebê. Muitas irão realizar uma maternagem rígida e guiada por regras racionalmente estabe­lecidas. Vindas de livros sobre educação, algum site de conselhos ou mesmo o que uma amiga lhe ensinou. Assim, possivelmente irá conseguir prover para o seu bebê alguns cuidados básicos, mas essa mãe não será capaz de desenvolver uma comunicação profunda e significativa com seu filho. O bebê não terá suas demandas identificadas e atendidas, pois a mãe que age mecanicamente, não pensa nas necessidades do bebê, mas naquilo que precisa ser feito, como um protocolo determinado por ela mesma, que envolve basicamente alimentação e higiene.

Certamente haverá déficit no amadurecimento quando existir falhas no processo de desenvolvimento da criança. O déficit está vinculado diretamente ao momento em que as falhas ocorreram na linha de evolução, que parte do estágio de depen­dência absoluta, passando pela dependência relativa e rumo à independência relativa.

Alguns sintomas podem estar relacionados com falhas no holding (que é o cuidado), no handling (que é o manejo, a manipulação) e também na apresentação de objetos. As falhas em estágios primitivos do desenvolvimento contribuem para patologias graves. Nos estágios posteriores as patologias serão cada vez menos graves, em função do amadurecimento do ego já acontecido.

No estágio de dependência absoluta, nos primeiros meses de vida, uma mãe e um ambiente suficientemente bom previne o desenvolvimento de uma deficiência mental não-orgânica, do autismo ou da esquizofrenia.

No estágio de dependência relativa, que ocorre a partir de uns 6 meses de vida, ou quando o bebe for capaz de adotar um objeto transicional (aquele paninho ou brinquedo estimação), existe ali uma pessoa que pode ser traumatizada e, portanto, uma falha neste período pode acarretar tendências antissociais e distúrbios afetivos.

Já a independência relativa, na qual a criança tende a apresentar a capacidade de cuidar de si mesma a falha ambiental não será necessariamente prejudicial. Devido ao nível de amadurecimento do ego já estruturado.

Um ambiente propício para a maturação e desenvolvimento de uma pessoa emocionalmente saudável deve conter alguns aspectos que são relevantes para apresentar uma condição de desenvolvimento. A principal característica desse ambiente é uma funcionalidade, ou seja, na estruturação é uma família que auxilia seus membros a serem mais funcionais – são pessoas que aprendem, crescem, são pessoas com responsabilidade e autonomia.

Pais ou cuidadores suficientemente bons são aqueles que cumprem suas funções básicas de criação e desenvolvimento. São de uma forma firme e flexível, adaptada às circunstâncias e aos fatos de cada momento e que ajuda a todos a estarem sempre num processo de tomada de consciência, de aprendizagem e de crescimento.

Uma forma de avaliar o ambiente familiar é verificar se estão desenvolvendo no seu dia a dia os aprendizados que são necessários para a criação de pessoas funcionais e cada vez mais rumo a independência e autonomia.

Algumas dessas aprendizagens são ligadas a segurança oferecida através de limites claros. Afinal, todos os membros da família precisam de limites, os bebês e crianças pequenas ainda mais. Os limites começam a ser definidos logo no nascimento, onde se oferece o colo, o seio e o espaço que o bebe irá utilizar. E seguem por toda a vida familiar, com as tarefas, os horários, rotinas, valores familiares. Isso implica em direitos e deveres, regras, orientação, contratos e muitos outros itens que darão à criança a certeza de ser amada, cuidada e orientada. A falta de limites claros gera na criança (e nos adultos também) a sensação de estar à deriva, de não ter com quem contar, de insegurança e desamor.

Só quando há segurança no ambiente que o bebê pode utilizar seus impulsos, inclusive os de agressi­vidade, de forma positiva, sem criar dificuldades para o ambiente e para si. A agressividade, principalmente aquela, expressa pelo bebê em seu primeiro ano de vida e que coexiste com o amor, deve ser suportada pelo ambiente. O ambiente neces­sariamente precisa manter-se estável aos ataques sofridos.

O desenvolvimento saudável da criança necessita de um sentimento de confiança, que seja constante e capaz de recuperar-se sempre após um ataque, pois a confiança no ambiente será testada pela criança sempre que ela achar necessário. Somente com a permanência do ambiente confiável e seguro é que o bebê desenvolverá a capacidade de preocupar­-se quanto aos seus atos, redirecionar seus impulsos agressivos a impulsos construtivos.

A destrutividade pertence a todos os sujeitos, quando se perde o direito de exercê-la e de dar conta dela, paga-se um preço por isso. Perde-se a capacidade de assumir respon­sabilidades e a saúde psíquica está atrelada a esta capacidade.

Donald Winnicott, é enfático ao afirmar que a expressão da agressividade não deveria ser negada, pois só assim o ser humano poderá aproveitá-la para reparar e restituir suas ações agressivas por meio do desenvolvimento de recursos internos, de um bom ambiente interno. Para o amadu­recimento do ser é fundamental o desejo incons­ciente de querer reparar, corrigir, drenar os instintos, reconhecer a crueldade que existe em si. Este é o único caminho para sublimar estes impulsos por meio de atividades construtivas.

Quando a criança se comporta de modo antis­social, não significa necessariamente que está doente, o comportamento antissocial, na maioria das vezes, é um pedido de um controle, que precisa vir do exterior e realizado por pessoas fortes, amorosas e confiantes, que possibilitem um envolvimento afetivo. Estando sob o controle exterior a criança antissocial poderá ficar bem. Ela busca por este controle e quando não o tem, em algum momento, se sentirá ameaçada pela loucura. Irá transgredindo contra a sua família ou sociedade com o objetivo de restituir o controle advindo do ambiente externo. Esta busca está permeada por um sentimento de esperança. Esperança de encontrar no ambiente externo aquilo que falhou no estágio da dependência relativa.

Talvez, alguns devem estar se perguntando: como se faz para transmitir um ambiente seguro para um sujeito na primeira infância? Não tem uma formula mágica, mas existe alguns itens que podem ser exercitados pelos pais que desejam prevenir a instalação de comportamentos antissociais em seus filhos e consequentemente o desenvolvimento da drogadição.

O ideal seria que o ambiente, respondesse aos atos antissociais da criança os reconhecendo, nomeando e os ajudando a administrar. Desse modo o momento de esperança pode ser correspondido. O ambiente que não responde dessa forma deixa a criança sem esperança e é novamente no ato antissocial que ela vai reencontrá-la.

É de extrema importância, em relação à tendência antissocial, que atitudes sejam tomadas no princípio do seu desenvolvimento, sejam elas no âmbito familiar ou da clínica. Torna-se cada vez mais difícil alcançar a cura para a desviança deixando o tempo passar. A criança pode torna-se cada vez mais difícil. É importante evitar que a defesa antissocial organizada se instale na conduta do sujeito, pois isso resultaria na delinquência. Na delin­quência estão acrescidos os ganhos secundários dos atos e isto torna ainda mais difícil a possibilidade de intervenções que levem à cura. Além disso, as reações sociais, frente aos atos delinquentes, intensificam-se tornando a situação ainda mais difícil.

Para que os casos de tendência antissocial não evoluam para a delinquência é fundamental uma atitude vinculada a cuidados básicos com o objetivo de prevenir a manifestação da própria tendência antissocial, uma vez que pais e responsáveis sejam orientados e informados sobre a relevância das suas funções e papéis para o desenvolvimento saudável de seus filhos. Ele precisam entender que diante da não realização de ações ambientais suficientes para o amadureci­mento emocional, um comportamento antissocial pode se apresentar como reação à deprivação.

Assim, os limites claros, como citei anteriormente, são tão importantes quanto as trocas afetivas, ou seja, saber conectar com seus sentimentos e sensações, saber expressá-los, saber ser continente do afeto e dos sentimentos dos outros. Isso tanto dos sentimentos ditos positivos (amor, carinho, aconchego, cuidado) como também dos chamados negativos (raiva, medo, mágoa, tristeza). Todos os sentimentos devem ser validados e ajudar as crianças e expressa-los e administrá-los.

É relevante também nesse processo que o ambiente suporte no desenvolvimento da auto estima, que consiste na certeza de que ele tem a capacidade no seu fazer. É um processo de descoberta e de treinamento de suas competências. É necessário aprender a lidar com as diferenças – de opiniões, de características, de habilidades – e principalmente com a valorização de cada um, mesmo sendo diferente. É aqui que se aprende a ser capaz de lidar com solidão, suportar a rejeição e os obstáculos que a vida irá impor. A auto estima é necessária como um suporte para as futuras frustrações.

O ambiente precisa também permitir o desenvolvimento da Autonomia. Que é simplesmente adequar o que cada um pode fazer sozinho, o que precisa de supervisão ou o que a criança não tem ainda idade, habilidade ou competência para fazê-lo. Importante destacar o ‘ainda’, pois em um processo evolutivo, ele chegará a se desenvolver para tal atividade. E um adulto jamais deve fazer por uma criança aquilo que ela dá conta de fazer sozinha. Se isso acontecer, estará aleijando seu desenvolvimento motor e emocional. É preciso permitir que faça e que explore seus limites. As tarefas devem ser simples num primeiro momento, mas nos sinais de  responsabilidade deve ser ampliado esse limite. O que irá oportunizar o processo de independência.

Ninguém no mundo nasce sabendo oferecer um ambiente saudável para seus filhos, mas é preciso maturação e suporte emocional para que possamos através da conexão afetiva nos ligarmos ao instinto e assim disponibilizar desenvolvimento para que as crianças caminhem rumo a independência.

 

Micheli Krayevski Eckel - Psicóloga