Mafra/SC, 23 de setembro de 2025
Queridas colegas,
Escrevo-lhes para compartilhar algumas reflexões sobre o brincar na
clínica com adultos, inspiradas na leitura de Winnicott e na minha prática
clínica.
Winnicott nos lembra que “o que quer que se diga sobre o brincar de
crianças aplica-se também aos adultos; apenas, a descrição torna-se mais
difícil quando o material do paciente aparece principalmente em termos de
comunicação verbal… Manifesta-se na escolha das palavras, nas inflexões de voz
e, sobretudo, no senso de humor” (O Brincar e a Realidade, 1971, p. 61 e 63).
Ele ainda afirma que “a psicanálise foi desenvolvida como forma altamente
especializada do brincar, a serviço da comunicação consigo mesmo e com os
outros”.
A leitura desta obra me levou a considerar a aplicação clínica da
análise da criança como modelo para o trabalho com adultos. Um paciente pode
vivenciar experiências de qualquer idade cronológica, pois o tempo do
inconsciente não é Cronos, mas Kairós. Buscamos ouvir o discurso inconsciente
como se qualquer comunicação pudesse refletir o sonho do par analítico. As
interpretações, nesse contexto, não se destinam a corrigir distorções da
transferência, mas a promover transformações internas. Assim, o brincar assume
papel relevante, trazendo características comuns na análise infantil (atividade,
intensidade, curiosidade, prazer, exploração, abertura, espontaneidade),
presentes em qualquer análise. Brincar serve para expandir a mente e favorecer
sentimentos de sintonização emotiva.
O analista precisa dispor de conceitos atualizados que permitam intuir
o que ocorre no plano inconsciente e compartilhado da relação, adotando um
estilo de conversa simples, direta e espontânea. Consideramos a fantasia
inconsciente e a realidade psíquica distintas do fato histórico do trauma;
importa, portanto, a narrativa que pode emergir nos relatos clínicos. A função
transformadora dos sonhos também é central: eles dão sentido à experiência
vivida. No dizer de Civitarese, o sonho não pertence mais exclusivamente ao
analisando, assim como a reverie não pertence apenas ao analista. Cada
comunicação, verbal ou não verbal, integra o conjunto do par analítico.
Na sala de análise, o brincar deve se manifestar como um estilo de
conversação coloquial, livre de altivez, arrogância ou severidade. Ferramentas
como metáforas, paralelismos e humor permitem criar espaços para o pensamento e
favorecer a contenção de emoções cruas. A conversa, mesmo quando aparentemente
trivial, se sustenta em uma teoria sofisticada. Falar de modo evocativo,
metafórico ou alusivo pode ser uma forma de estruturar novos vínculos, deixando
espaço para o outro e para o silêncio, criando um ambiente receptivo e
acolhedor. O jogo de palavras ou o humor usado pelo analista pode trazer
reconhecimento (ou não) do clima emotivo da sessão pelo paciente, promovendo
aspectos progressivos ou regressivos que devem ser observados com atenção.
O brincar na análise estende-se da psicanálise infantil, seguindo o
modelo que estabelece a equação simbólica “brincar igual a sonhar”, centrado no
uso que as crianças fazem da brincadeira, no conteúdo e no que ele representa,
adaptado para adultos pela associação livre. Embora Freud tenha sugerido o jogo
do carretel como referência, o que encontramos em Winnicott, Bion, Civitarese,
Anne Alvarez e outros é uma perspectiva radicalmente intersubjetiva, que
reconhece o nascimento psíquico social. Para Winnicott, o brincar é tanto a
própria atividade lúdica quanto o espaço de confiança onde a brincadeira se
desenvolve entre mãe e bebê. Ele facilita o crescimento, a saúde, os
relacionamentos e é uma forma altamente especializada de comunicação consigo
mesmo e com os outros. O brincar espontâneo pode remover bloqueios no
desenvolvimento e, embora possa ser assustador se não mediado, permanece uma
experiência criativa que exige continuidade no tempo e no espaço.
No brincar, situamo-nos entre o subjetivo e o objetivamente percebido.
Surge o elemento surpresa, que é crucial. O contrário de brincar não é ser
sério, mas ser real. Quando o material interpretado surge fora de contexto,
promove submissão e desenvolvimento de falso self. Fenômenos transicionais e
primeiros objetos não caminham para o brincar compartilhado e para experiências
culturais. Poder brincar implica amparo materno e envolve o corpo. Como lembra
Anne Alvarez: “Por mais negativo que seja o conteúdo das brincadeiras e da
imaginação, a simples capacidade de brincar e de usar a imaginação para criar
formas implica certo nível de esperança” (O coração pensante, 2010).
Winnicott ressalta que o encontro com o self não ocorre por produtos do
corpo ou da mente, nem por conhecimento ou explicações, mas por novas
experiências em um setting especializado. É necessário viver a experiência,
sofrer e experimentá-la, mesmo sem propósito definido, em um estado de “amorfa”
ou regressão benigna (Balint). Quando há provisão ambiental, confiança e espaço
de comunicação sem intenções ou memórias, o paciente pode sentir-se “sendo um”
com o analista, comunicando-se de forma direta e confiável, podendo existir
como unidade. O terapeuta deve estar aberto ao absurdo, ao inusitado,
acreditando na possibilidade de transformação.
Um exemplo clínico ilustra essas ideias: Josi, 62 anos, veio preocupada
com mudanças em seu comportamento após uma reunião social. Sua condição
emocional, até então oscilando entre atividade intensa e apatia,
intensificou-se com tristeza, ansiedade, medo e somatizações, gerando irritação
e dificuldades nos vínculos familiares. Josi nunca havia feito acompanhamento
psicanalítico, embora tivesse enfrentado perdas significativas ao longo da
vida, incluindo a morte de amigos e do cônjuge. Seus atendimentos prévios eram
psiquiátricos e medicamentosos.
Josi apresentava um diálogo que escondia uma vitalidade assustada,
desejando e temendo a finitude. Durante muitos meses relutou, buscando retornar
à vida que tinha antes, tentando se livrar da sensação de aperto e sufocamento
no peito. Lentamente, seus relatos de raiva e tristeza, inicialmente atribuídos
a fatores externos, como uma mãe inadequada ou a passagem do tempo, começaram a
se deslocar para o desconforto de ser quem é hoje, enfrentando limitações
físicas e cognitivas.
Ela frequentou todas as sessões pontualmente, retomou atividades
físicas e sociais, e gradualmente expandiu sua capacidade de humor, brincar e
narrar experiências passadas e presentes. A cada fato apresentado, associava
uma música, recuperando gosto pelo cinema também. Em uma sessão, cantou com voz
suave e afinada, surpreendendo-se:
“Reconhece a queda
Mas não desanima...”
E eu continuei cantando junto com ela:
“Levanta, sacode a poeira e dá a
volta por cima”.
O brincar, a música, os textos e poemas antigos, trazidos à análise,
tornaram-se ferramentas para atualizar narrativas e possibilitar novos vínculos
afetivos.
Chamo Josi, metaforicamente, de buraco negro, seguindo a metáfora de
Ofra Eshel para pacientes que carregam experiências traumáticas precoces ou
primitivas, que não podem ser plenamente simbolizadas. Winnicott nos lembra que
áreas de não integração só podem ser vividas, não lembradas nem pensadas,
constituindo núcleos de intensidade radical. Um trauma pode gerar colapso do
eu, inacessível à tradução imediata. O analista trabalha próximo desse
horizonte, sustentando a experiência junto ao paciente, sabendo que nem tudo
pode ser nomeado. Josi construiu mitos sobre sua identidade, não foi a filha
amada de sua mãe, e esses temas surgem nas imagens que traz, permitindo diálogo
produtivo. A vitalidade a assusta; ser importante ou elogiada é temido. Lida
com limitações atuais, comunicação digital e a consciência da finitude,
encontrando na análise espaço de sustentação.
É nesse espaço, não de interpretações imediatas, mas de presença e
acolhimento, que mesmo a escuridão mais densa pode ser compartilhada sem risco
de implosão. Aceitamos a inevitável frustração de não poder fazer tanto nem tão
perfeito. Este trabalho delicado exige criatividade positivada, esculpindo o
campo analítico com cuidado e atenção. Como nos lembra Winnicott, “quando o
brincar não é possível, então o trabalho do terapeuta visa levar o paciente do
estado de não ser capaz de brincar para o estado de ser capaz de brincar” (O
Brincar e a Realidade, 1971).
Escrevo-lhes esta carta para compartilhar como o brincar em análise de
adultos pode ser instrumento de transformação, sustentação e criação de novas
funções psíquicas, reafirmando a centralidade da relação analítica e da
presença do analista como facilitadora desse processo.
Fico à disposição para novas trocas e compartilhar
Abraço,
Micheli Krayevski Eckel
